O que leva um homem público a abandonar periodicamente o status de reserva moral para submeter-se às críticas e ser matéria de discussão, não pelo que ele diz, mas pela condição que ocupa, e ficar à mercê do imponderável?
Em recente artigo publicado no dia 2 de setembro pelos jornais “O Globo” e “O Estado de São Paulo”, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, outra vez desfere ataques a administração do seu sucessor, o ex-presidente Luís Inácio da Silva. Tal artigo deixa claro a mágoa que sente de não ter tido altos índices de reconhecimento da opinião pública e de não ser defendido enfaticamente pelos seus companheiros de partido pelos benefícios feitos quando exerceu a Presidência.
No início do artigo, o ex-presidente faz alusão a uma crise moral, aproveitando uma situação que vem de longa data, para o leitor não perceber a ausência de autocrítica. Discorre sobre a corrupção durante o governo Lula, a compra de apoio dos parlamentares para votarem a favor do Governo, o chamado “Mensalão”. Mas, o ex-presidente não consegue explicar como foi que conseguiu aprovar a emenda que dava o direito a reeleger-se. Ou seja, promoveu uma mudança constitucional para beneficiar-se. Outra ação nebulosa ocorreu durante as privatatizações das empresas estatais com denúncias de corrupção no processo. Essa susposta de malversação foi detalhada no livro "A PRIVATIZAÇÃO TUCANA", de autoria do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que a classifica como "o maior assalto ao patrimônio público brasileiro". Se a corrupção no governo Lula está sendo julgada, em contrapartida, as suspeitas sobre a administração de FHC sequer foram verificadas de forma adequada. Muito suspeito.
Como é de domínio público, os supostos criminosos estão sendo julgados pela Suprema Corte de Justiça do País, e, pelo andar da carruagem, serão punidos. Não obstante, há aqueles que escapam do acerto de contas com a Justiça pela frieza com que articulam seus golpes na sombra; mas têm a mesma avidez pelo poder e pelo dinheiro daqueles que foram pegos à luz do dia. E, não tardará o dia, em que esses bandidos ocultos serão chamados pela vida à responsabilidade pelos seus desencontros, pois a esta não cabe habeas corpus ou liminares. A dinâmica da vida não abre tais precedentes, só há tempo para se lamentar e sofrer.
Prossegue Fernando Henrique e cita a “herança pesada” que o ex-presidente Luís Inácio deixou para a sucessora no tocante à infra-estrutura do Brasil. Em verdade, na sua época, o Senhor Fernando Henrique legou ao seu sucessor um País sob a intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI), inflação ascendente e com uma crise energética sem precedência que se avizinhava - o conhecido “apagão”. Podemos perceber a falta de humildade que caracteriza muitos homens de saber: egocentrismo, que só reconhecem a si mesmo num culto à personalidade. Essa é uma característica dessas pessoas: não aceitam que lhes digam que não foram o inventor da roda.
As raízes da mágoa do ex-presidente Fernando Henrique é não ter sua administração defendida pelos próprios partidários e não ter o mesmo índice de aprovação conseguido pelo ex-presidente Luís Inácio ao deixar o poder. Um verdadeiro homem de Estado não deve esperar o reconhecimento da opinião pública, tem que trabalhar sem alarde pelo país, e a História se encarregará de fazer justiça. De outra forma, abre-se espaço e municia aqueles que não admitem conquistas visíveis na sua administração (1995-1998/1998-2002) que deram um grande impulso ao desenvolvimento do Brasil.
Em verdade, os grandes estadistas não existem mais, não da envergadura do ex-presidente Jimmy Carter, que fez uma administração admirável no que se refere aos direitos humanos. Mudou a relação que Washington tinha com as ditaduras principalmente as da América Latina. Terminado o mandato, dedica-se à luta pelos Direitos Humanos em todo o mundo; sendo o primeiro presidente dos EUA a ganhar, depois de deixar o poder, o Prêmio Nobel da Paz. Onde houver arbitrariedade no trato com os cidadãos, lá está Carter em sua defesa. No momento em que a única alternativa para os impasses parece ser a da beligerância, num ambiente onde há o culto da vaidade e da egolatria, um homem com o propósito de Jimmy Carter é difícil de ser encontrado.
No terreno pantanoso das vaidades, resta saber: quem de ambos não teve acertos e erros, quem agiu pensando só e exclusivamente na coletividade? Mas, sobretudo, tanto o ex-presidente Fernando Henrique quanto o ex-presidente Luís Inácio praticam atentados periódicos ao discernimento alheio, na exaltação do próprio mérito e na desqualificação do trabalho do outro. Faria um bem incomensurável à biografia dos ex-presidentes, se eles seguissem o exemplo de Carter, sem alarde; porém como um verdadeiro estadista constrói um mundo melhor.
Pensemos nisso!
Um forte abraço.
Até a próxima!
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