sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Justiça às avessas e a dignidade humana

     Até quando tomaremos a droga tranquilizante do conformismo? Quando colocaremos um ponto final na vergonhosa condição em que se encontra a maioria da população brasileira, escondida sob o manto da democracia racial no nosso País? A reserva de cotas para negros nas universidades comprova que ainda preferimos atenuar os efeitos de um problema a combatermos a sua causa.

     À primeira vista, a medida parece cabível e seria a redenção de uma injustiça imemorável, pois os negros estão há mais de 400 anos à margem da sociedade, sendo discriminados no trabalho e no convívio social. Entretanto, numa análise isenta de paixão, verifica-se que o critério deveria ser usado para a classe pobre, que se constitui de negros, brancos e pardos, classe apartada dos benefícios sociais desde o surgimento das primeiras civilizações.

     Argumentam os defensores das cotas que essa forma deu bons resultados nos Estados Unidos. Vamos aos fatos. As ações afirmativas tiveram início naquele país, na década de 60, como forma de promover a igualdade social entre negros e brancos norte-americanos; mas esquecem, ignoram ou propositadamente não informam ao grande público que a Suprema Corte dos EUA, no dia 28 de junho de 2009, declarou que o sistema de cotas em escolas era inconstitucional. Também não disseram que a população negra norte-americana compõe-se de uma minoria, ao passo que existe quase uma paridade entre negros e brancos na comunidade brasileira. Num país como o nosso não há sentido a implantação desse sistema.

     Sem querer invocar o artigo 5.º da Constituição brasileira, que ressalta a inconstitucionalidade do sistema de cotas, devemos lembrar àqueles que procuram justiça que o Brasil é um país miscigenado, onde viveram e vivem várias etnias que contribuíram e contribuem para o desenvolvimento da sociedade. Além do mais, a postura negra brasileira é bastante diferente da postura dos negros norte-americanos. Aqui eles não querem apenas o reconhecimento de um direito, com baixa autoestima, tentam agir como os brancos para não se sentirem tão diferentes, que na verdade não são. Quando Martin Luther King Jr. fez o histórico discurso em Washington, dizendo que tinha um sonho em ver os seus quatro filhos viverem em uma nação onde eles seriam julgados não pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter, ele se referia à dignidade humana. Atualmente vemos os frutos daquela ação contra a discriminação étnica na Casa Branca: Barak Obama, o primeiro presidente negro na história dos EUA. Por isso, quando vemos famílias negras comprando automóveis, no Salão de Detroit, temos a certeza, 48 anos após, que a comunidade negra norte-americana, no seu conjunto, compreendeu a essência da luta de Martin Luther King Jr. e de milhares de anônimos.

     Como sempre aconteceu na nossa História, aqueles que comandam o país utilizam uma cortina de fumaça para proteger os seus interesses e assim assegurar privilégios. Concede-se um suposto direito (cotas) para não mexer no ponto nevrálgico da questão, que é a deficiência do ensino público. Sem maciços investimentos na reforma do sistema educacional do jardim de infância ao nível superior, qualificação e treinamento de professores, tanto negro como branco ‘ariano’ não terão uma formação adequada para atender um mercado a cada dia mais exigente no tocante à qualificação. É possível que o sistema de admissão por meio da meritocracia nas universidades públicas esteja aquém do desejado, porém é mais justo do que o de castas utilizado no passado.

    Enfrentar com altivez as causas da discriminação passa necessariamente por uma profunda reflexão do negro brasileiro sobre seu comportamento até aqui. Sem essa autocrítica é improvável erradicá-la e até mesmo difícil miminizá-la. O preconceito contra as etnias está na agenda das discussões internacionais, juntamente com outras formas de preconceitos, constituindo-se grande empecilho para a justiça social em todo o mundo. Não obstante, as concessões indevidas envernizadas de justiça, aqui no Brasil, deixam uma mácula na dignidade do ser humano que só pode ser retirada com a busca de um sonho profundo enraizado no desejo de liberdade e de igualdade para todos. Pensemos nisso.

8 comentários:

  1. O senhor foi novamente ao ponto. Concordo: um erro não justifica o outro. Parabéns. Mário - Minas Gerais

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  2. Seu texto é muito equilibrado e mostra uma realidade que poucos querem admitir.

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  4. Sou contra a política de cotas para negros.
    Acho q eles têm a mesma capacidade que uma pessoa branca, parda, mulata, etc... e isso acaba se tornando também certo preconceito contra os brancos. Há muitos brancos que não têm condição de ao menos frequentar uma sala de aula, podemos observar isso em alguns lugares do Sul, onde se concentra uma grande parte de brancos dos olhos azuis descendentes de alemães e etc., que não conseguem se quer assistir uma aula, tendo uma vida totalmente rural. E com eles o que se deve fazer? Cotas para brancos pobres e desfavorecidos?
    Sou a favor da política de cotas a alunos de escolas públicas, que não proporcionam base alguma para os alunos se quer ir para uma segunda fase em um vestibular. Ai sim pode notar que há uma imensa desigualdade enquanto um aluno estuda no mais tradicional colégio, e depois passa em primeiro lugar em uma universidade pública. Então não há negros que se quer podem estudar na melhor escola privado de uma cidade, mesmo que sejam bolsistas, ou tenham condições reais para pagar?
    Portanto acho q deve ser repensado a respeito desse sistema de política de cotas aos negros, pois há muito mais desigualdade do que se pensa, e se defendem tanto que todos devemos ser iguais, porque não colocar isso na prática em todos os conceito?

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  5. Vejo com muita preocupação essa política de cotas, diante dos fatos que já sabemos mais essas infomações que você nos passa aumentou a minha convicção desse grande erro. Marcella- Londrina, PR

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  6. Boa tarde
    Não penso que a cota para negros vá acrescentar algo em nosso país, muito pelo contrário, acaba criando mais preconceito. Teriams que ter cotas para branos,pobres (como disse a Guacira). Infelizmente em nosso país temos presenciado atitudes absurdas e essa é somente mais uma.
    att,

    Luiz Fernando - Guarulhos - SP

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  7. Ter cotas para negros é como costumamos dizer "tapar o sol com a peneira" e não resolver de fato os graves problemas existenes em nosso país.
    "Há muitos brancos que não têm condição de ao menos frequentar uma sala de aula, podemos observar isso em alguns lugares do Sul, onde se concentra uma grande parte de brancos dos olhos azuis descendentes de alemães e etc.". Concordo plenamente oom esta afirmação feita pela Sra. Guacira, pois moro aqui em São Lourenço no Rio Grande do Sul.
    Quero parabeniza-lo pelo excelente texto.

    Matias Back - São Lourenço do Sul - RS

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  8. Parabéns amigo, estou totalmente de acordo com você. Penso que a solução para o Brasil está na educação de qualidade nas escolas. A criança deveria aprender na escola a cidadania, aprender que têm direitos e deveres. Porém isso não parece interessante para os governantes, pois povo ignorante é mais fácil de enganar, daí eles entram com esses paliativos assim como, (bolsa família, cotas para negros, salário desemprego...), que sevem mais para desvio de dinheiro do que a ajuda propriamente dita. Isso faz com que o brasileiro fique cada vez mais acomodado e preguiçoso. Afinal para que lutar por um ideal se tudo acaba em pizza?

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