segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A certeza no banco dos réus

     Quando Jesus defendeu uma mulher supostamente surpreendida no ato de adultério e, logo após o afastamento da multidão que intentava lapidá-la, Ele advertiu-a que não tornasse a pecar, tal atitude causou à sociedade judaica da época um abalo sísmico, cujo epicentro sentimos até os dias atuais. Mas, por que Jesus infringiu as leis mosaicas? O que Ele quis dizer com “vai e não peques mais".
      Quem erra tem de ser punido! Todos nos arvoramos em proclamar isso em nome da moral e da dignidade; contudo julgar não é uma tarefa fácil e, fazendo isso, muitas vezes, tomamos partido. É que, para podermos avaliar bem uma situação, precisaríamos estar de posse de todos os fatos com riqueza de detalhes, principalmente quando se tratam de problemas pessoais e familiares.
      Quantas vezes batemos o “infalível” martelo da justiça, condenando alguém ou alguma situação, negando as mais elementares prerrogativas do acusado, que qualquer iniciante no estudo do Direito sabe: “o privilégio da dúvida e a presunção da inocência”. Talvez haja no inconsciente coletivo uma pressa em julgar o ato do outro no afã de fazer justiça, sem considerar as circunstâncias ou motivos; não que esses venham a ser atenuantes para justificar desacertos, porém nos fornece a fonte sondável para extrairmos o desconhecido que habita em cada um de nós.
     Os erros alheios são lamentáveis, todavia deixam lições para o público. Proporcionam aos espectadores uma visão mais nítida dos caminhos escolhidos por outra pessoa, os quais, se não formos muito orgulhosos, podem servir de subsídio valioso para fazermos uma avaliação da nossa conduta em relação ao semelhante e voltarmos o nosso olhar para dentro de nós. Com uma dose de humildade, podemos realizar um balanço de custos e benefícios e analisar erros e equívocos no confronto com a realidade.
     E, voltando às perguntas no início do texto, Jesus não afrontou as leis mosaicas, estava dando-lhes cumprimento. Quando ele disse para a multidão que desejava lapidar a suposta mulher adúltera: “Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado”, Ele cumpria a lei. No Levítico (um dos livros da Bíblia), cap. 20, v. 10, está escrito: “Se um homem adulterar com a mulher do seu próximo, será morto o adúltero e a adúltera”. Por isso, foram embora primeiro os mais velhos. Por sua vez, os apóstolos, testemunhando aquela cena, não entenderam o porquê de Jesus defender “aquela” mulher. Um deles, Pedro, se manifestou: “Mestre, como pode!? Ela vai errar de novo! Mestre, o Senhor está promovendo a devassidão!... O Senhor está incentivando que outras façam o mesmo.
     Em buscando a etimologia da palavra PECAR, encontramos, em grego, o termo correspondente HARMATIA, que significa “errar o alvo”. Então Jesus falou que ela “errou o alvo”, pecar é errar o alvo. O que o Cristo quis ensinar-nos? Que nosso aprendizado se dá por via de tentativas, em experienciar, em viver e transformar em lições erros e equívocos. Em outras palavras, Ele disse à Humanidade: – Tenta de maneira diferente, tenta de outra forma, aquela não te serve, vê a vida por outro paradigma. Esse foi um dos muitos convites que Ele fez a tantas pessoas que O procuravam.
      Dos muitos recados dados pela vida, um deles nos adverte que há uma enorme distância entre aquilo que pensamos ser a verdade e a verdade oculta aos nossos olhos e, inclusive, à nossa consciência. Por não considerarmos certas possibilidades, estamos sempre a um passo da queda na vala dos comuns, que reserva a cada um de nós um lugar de destaque nos requisitos imprudência e insensatez. Quando Pilatos perguntou a Jesus o que era a verdade, o Mestre silenciou. Pensemos nisso.

     Até a próxima!

6 comentários:

  1. Carlinhos, é muito difícil julgar, mas fazemos isso sempre. Estamos julgando tudo e todos a todo instante, devemos reflitir se nós gostarimos de ser julgados da mesma forma. Excelente texto como os demais. Beijos, Alice, Feira de Santana- BA

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  2. Senhor Carlos, desde que o mundo foi criado o homem julga tudo ao seu redor. Evoluimos, ganhamos em inteligência, mas a vaidade inebriou o discernimento do homem. Hoje, ele anda querendo chegar a algum lugar, porém não sabe qual. O senhor pegou como base do seu texto uma passagem, que de fato poucas pessoas conhecem sobre a "MULHER ADULTÉRA" e mostrou a relatividade das nossas "verdades". Parabéns, texto muito rico em aprendizado. Antônio Soares,Belém- PA

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  3. É verdade. Temos o mau hábito do julgamento precipitado, nem nos preocupamos em verificar se o que ouvimos e vemos é verdadeiro, acreditamos e pronto. Como sempre estimado, você fez um ótimo texto, aliás por que Jesus silenciou? Thaís, Feira de Santana-ba

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  4. Carlos, seu blog foi recomendado por uma amiga, confesso não ia ver, mas quando estava na Net vi algém comentando os seus textos e resolvi dá um olhada.Olha a surpresa: textos inteligentes e profundos como esse que acabo de ler. Ana, Feira de Santana -BA

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  5. O grande problema é que a maiora de nós não aprendemos com os erros alheios. Inevitavelmente temos de passar pela dor, vexame e pela reprimenda, para talvez assimilarmos o aprendizado. Seus textos são muito bom e provocam um reflexão. Iraci Aguiar, SÃO Paulo- SP

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  6. Estamos num mundo de provas e expiações, devido aos erros do passado! A tendência é julgarmos! Hoje somos seres melhores, mas nossa consciência nos julga, assim como as pessoas do mundo! Entendamos que devemos nos perdoar e nos amar incondicionalmente somente assim, não julgaremos e aceitaremos os julgamentos,pois estaremos livres da CULPA de erros de vidas passadas!A compreensão passa pelo coração!Vou procurar me amar para não julgar!Adorei o texto!Luz e Paz!!Lílian

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