quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A história não contada de um crime

   Tomados pelos sentimentos de revolta e de revanche que os brutais assassinatos de Manfred e de Marisa Richthofen, provocaram, raras pessoas perceberam que nessa tragédia, Suzane Richthofen foi tão vítima quanto os pais.

  Fica difícil para a maior parte de a opinião pública entender a razão que leva um filho a engendrar a morte dos próprios genitores. Por não compreender os meandros do comportamento humano, essa significativa parcela da sociedade, de percepção mediana, pede e exige a lei de talião. Há, nesse caso, nuanças que escapam à compreensão popular.

  A Psiquiatria fala de transtornos de personalidade, psicopatia, sociopatia e outras designações do estudo das doenças da mente. Não obstante, se levarmos a efeito uma análise mais detida sobre a vida dessa moça, constataremos que essa tragédia encontra mais explicações nos campos da Psicologia e do comportamento humano do que no terreno movediço da generalização.

 Em depoimento à Polícia, Suzane afirmou que decidiu participar como coautora dos crimes, por amor ao namorado Daniel Cravinho, pois os pais dela se constituíam em empecilho a concretização desse amor. Esse plano de duplo homicídio foi levado às últimas consequencias por haver faltado durante toda a sua vida, justamente,  amor, na acepção da palavra. Manfred e Marisa, apesar da estirpe intelectual, não conseguiram transmitir para a filha valores universais de convivência: respeito, apreço à vida, tolerância à adversidade de interesses e amor filial principalmente.

  O senso comum diz que essa jovem tinha tudo para ser feliz. Universitária, bonita, culta, poliglota, nascida em berço de ouro e pais que a amavam. Mas, nem tudo na vida  acontece como nos comercias de cigarros ou nos filmes de Hollywood. A realidade do nosso dia a dia é bastante diferente.  A forma de entendimento de amor por parte dos pais de Suzane foi corrosiva para os propósitos paternos. No afã de verem a filha feliz, ofereceram quase tudo que o dinheiro pode adquirir, sem mensurarem o efeito que tal atitude causaria no futuro.

   Sabemos, todos que já passamos da puberdade, que na vida tudo tem limites, até mesmo a proteção dos filhos, se essa ultrapassa as fronteiras do bom senso. Quando isso ocorre, o tão nobre gesto acaba sendo maléfico para quem o faz e, não distante, um presente de grego para quem o recebe.

    A decisão dos pais de Suzane por uma educação voltada para acentuar a supremacia dos bem-sucedidos, sem nenhum cultivo de valores ético-morais, criou uma cosmovisão de que ela estava acima do bem e do mal e, mediante esse entendimento, agia ao seu bel-prazer. O cheque em branco emitido há 19 anos pelos pais dessa jovem foi recusado pela selva de pedra por insuficiência de escrúpulos.
    Essa juventude "bem-nascida" cresce sem nenhum norte, apenas pautada pelo consumo exacerbado, pela proposta do ganho fácil e pela realização de seus desejos a qualquer custo. Tudo isso com a anuência daqueles que deveriam dar-lhe limites e  prepará-la para saber conviver com os ganhos e as perdas inerentes à condição humana . Enquanto os pais não reconhecerem sua parcela de responsabilidade no comportamento transgressor e até homicida dos filhos, casos como o de Suzane voltarão a acontecer. Pensemos nisso.
15 de dezembro de 2002.

4 comentários:

  1. O senhor conseguiu buscar elementos de formatação para esse crime hediondo de maneira sóbria, equilibrada e contudente. Além de mostrar a responsabilidade dos pais nas ações delinquentes dos filhos, temos a grata satisfação de encontrar no deserto de ideias que se tornou a nossa sociedade, um oásis. Texto soberbo!

    ResponderExcluir
  2. Certamente uma atitude como esta requer olhares de vários ângulos para que se possa compreendê-la, mas com certeza a falta do amor verdadeiro e o desprezo de valores morais foram fatores fundamentais para que acontecesse um episódio tão lamentável !
    Silvana Rodrigues

    ResponderExcluir
  3. Achei teu artigo muito realista e com certeza a educação dos filhos depende muito dos pais, mas por outro lado as vezes ou quase sempre penso que as pessoas nascem com seu instinto para o bem ou para o mal. Quase sempre e com raras exceções os filhos são educados de forma diferente pelos pais. Eles (pais), seguem a mesma linha para todos, porém de repente vc se depara com uma ovelha negra e ficamos sem entender. Eu não tenho respostas para as minhas perguntas,(como te falei no email), mas a vida continua. abs, guacira

    ResponderExcluir
  4. Um dos grandes problemas nosso é considerar os fatos a partir de nossa visão simplista e unilateral... acontecimentos como este não me surpreende,pois grande parte da humanidade(nós) estamos ainda desconectados com as verdades espirituais... a atitude desta jovem nada mais é que resultado da lei de causa e efeito, portanto não nos cabe julga-la... culpada? inocente? e sim aprendermos a nos tornarmos pessoas melhores sendo a cada instante críticos no referente as nossas atitudes conosco e com o próximo...

    Josinan.

    ResponderExcluir